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sábado, 6 de abril de 2019

Premiação MARCELO GLEISER


Físico brasileiro Marcelo Gleiser vence prêmio Templeton, 
o 'Nobel da espiritualidade'

Audrey Furlaneto -  “O Globo”, 19/03/2019 

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RIO - O físico Marcelo Gleiser, de 60 anos, foi anunciado nesta terça-feira, dia 19, o vencedor do prêmio Templeton, honraria que já foi concedida a Madre Teresa de Calcutá (em 1973) e Dalai Lama (em 2012). 
O prêmio, uma "espécie de Nobel da espirituralidade", como define o vencedor, é entregue a profissionais que tenham feito "uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida, seja por insights, descoberta ou trabalhos práticos", segundo a Fundação Templeton.


A honraria — no valor de 1,1 milhão de libras esterlinas (cerca de R$ 5,5 milhões) — será entregue oficialmente numa cerimônia em Nova York, no dia 29 de maio. Trata-se de um reconhecimento pelos 35 anos de trabalho do físico e cosmólogo nascido no Rio e radicado nos Estados Unidos. Gleiser é professor de Física e Astronomia e ocupa a cátedra Appleton de Filosofia Natural no Dartmouth College, em Hanover, nos EUA.

Sobre o Templeton, ele explica, não se trata de um prêmio de religião.

— Quando se fala em religião, pensamos em algo institucionalizado, como cristianismo, islamismo e budismo, por exemplo. Espiritualidade é um termo muito mais amplo que tem a ver com a nossa relação com o mistério da existência e que transcende questões como: "Em que Deus você acredita?" ou "Que igreja você frequenta?". 
Por espiritualidade, entendemos a relação do ser humano com o mistério da existência — disse Gleiser ao GLOBO por telefone, de Hanover, em entrevista exclusiva.

O físico conta que, na comunidade científica, há "ateus ferrenhos, que acham espiritualidade e religião uma perda de tempo" e também cientistas que são "religiosos ortodoxos, cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, pessoas que acreditam quanto mais entendem a natureza mais entendem a criação divina".

— No meu trabalho como cientista, minha pesquisa é muito mais ligada a questões fundamentais sobre a origem do universo, a origem da vida, do que sobre como criar um microchip melhor para fazer um iPhone funcionar mais rápido, por exemplo. Minhas questões são mais existenciais — explica Gleiser. — O grande ponto é que hoje em dia é possível trabalhar em ciência e em questões que tenham uma natureza filosófica, sobre o significado da vida, da nossa relação com a natureza. É nessa parte que eu me encaixo.

Ao anunciar o prêmio, a presidente da Fundação Templeton, Heather Templeton Dill, disse que Gleiser incorpora os valores que inspiraram seu avô (John Templeton) a criar o prêmio e a instituição. Segundo Heather, o trabalho do cientista brasileiro incorpora dois valores especialmente importantes para a fundação: "a busca da alegria em todos os aspectos da vida e a profunda experiência humana de maravilhamento e contemplação".

"Ele mantém a mesma sensação de maravilhamento contemplativo que experimentou pela primeira vez quando criança na praia de Copacabana, contemplando o horizonte ou o céu noturno estrelado, curioso sobre o que está além", acrescentou Heather, em texto divulgado pela instituição.

'Engajamento com o mistério'
Um dos mais conhecidos cientistas brasileiros, Gleiser rejeita a noção de que exclusivamente a ciência pode chegar a verdades sobre a realidade. O físico, por outro lado, diz que, por meio de seus escritos, tenta "colocar a ciência como uma ferramenta de nossa busca por um entendimento.

terça-feira, 26 de março de 2019

Carta a Paul McCartney - Eberth Vêncio

Carta a Paul McCartney sobre as agruras 
de um país despedaçado
EBERTH VÊNCIO -  em 'Revista Bula' -  crônicas

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Caro Paul, espero que tenha melhorado da lombalgia. Sei o que é uma dor nos quartos. Suponho que tenha recebido pelos Correios o emplastro de arnica que mamãe, sua fã desde “Please please me”, preparou com aquelas mãozinhas enrugadas pelo tempo. Ela só pensa em lhe agradar e muito mais a mim. 
Preferi escrever no idioma português para não passar por metido, presunçoso. Já cansei de ser odiado. Tá cheio de “haters” nas redes sociais, você sabe, né? Talvez não saiba. Acho que o John foi o último cara que odiou você. Ele era de capaz de ir do céu ao inferno em segundos. Coisas de amor e ódio. O jeito Lennon de ser.

Cara, estou decepcionado, com o coração em frangalhos. É com enorme tristeza que eu lhe comunico que não poderei comparecer ao seu show deste ano em São Paulo. Sim, é uma situação lastimável. 

Eu já tinha feito as contas e até encomendado dez litros de pequi nativo do cerrado goiano para lhe presentear. Ficaria uma delícia com frango, se você não fosse um vegano. Mesmo assim, dá pra cozer o pequi ao molho-de-açafrão, sem ter que matar nenhum ser vivo. Cuidado! Não morda o caroço, Paul. É espinhoso por dentro, como a vida por fora.

Em breve, você estará de volta ao Brasil. Traga pão quando vier, Paul. Aqui também é sua casa. Acho que você deve estar acompanhando as notícias do Brasil aí de Londres, né? Nós, o povo brasileiro, estamos mergulhados num marasmo econômico e numa crise política que parecem infindáveis. Somos 12 milhões de desempregados, cara. Não é o meu caso, por puro golpe de sorte. Contudo, por causa do arrocho financeiro que também me afeta, será inviável a minha viagem até a Pauliceia, a fim de prestigiá-lo.

Não bastasse a pindaíba orçamentária, vivemos um momento político conturbadíssimo. Prenderam mais um de nossos ex-presidentes. Uma vergonha mundial. 
Não tenho certeza, mas, é bem provável que o Brasil seja a nação do planeta que mais tenha denunciado e preso políticos e agentes públicos em todos os tempos. Está difícil confiar nas pessoas, especialmente no âmbito da política, uma seara fétido-pantanosa onde se procuram homens honestos como agulha num palheiro. É duro dizer isso, sei que você adora vir ao Brasil, mas, receio que somos o povo mais desonesto que se tem notícia.

No momento, estamos sob a tutela de um capitão da reserva eleito pelo voto popular, fanfarrão, e que se comporta como um aloprado. Parece que ainda não saiu da puberdade. 
Baseado nas primeiras semanas do atual governo, receio que ele poderá não concluir o seu mandato, tornando-se, quem sabe, miseravelmente, o terceiro presidente da república retirado do poder pelo escabroso e espúrio Congresso Nacional. 
Só mesmo a música, a sua encantadora música, Macca, para amenizar tamanho desencanto e descontentamento.

Adoraria tomar outro chá-de-cinquenta-dólares com você no Tangará, como fizemos na última turnê, mas, como eu já disse, o mar não tá pra peixe. Espero que compreenda o meu sufoco, o meu perrengue financeiro e essa expressão da língua portuguesa que significa estarmos quase todos fodidos-e-mal-pagos por aqui.


O ano de 2019 começou esquisito. 
Um novo governo com velhas práticas políticas. 
A mortal avalanche de lixo tóxico nas Minas Gerais. 
Crianças morrendo incendiadas na sede do Flamengo. Imagine se a tragédia tivesse acontecido no Vila Nova de Goiás. Já teria gente presa e, provavelmente, seria o fim de linha para o clube. 
Teve ainda a chacina de estudantes em Suzano. 
A morte do Boechat. 
Essa carestia que parece interminável. 
O que tem de brasileiro sonhando em se mudar aí pro Reino Unido tá um horror. 
Viver no Brasil anda parecendo um pesadelo, man.

Enfim, salvo engano, esta será a sua nona passagem pelo nosso país. Estivemos juntos em cinco temporadas, lembra-se? Goiânia, Rio, Brasília e São Paulo (duas vezes). Desta vez, estou fora. Espero que me perdoe, amigo. Sinto-me amargurado, porém, certo de que serão shows memoráveis. Fica para a próxima. Estou com 53; você, 76. Aznavour cantou até os 94. Isso significa que ainda temos bastante querosene pra queimar. Cuide-se, Paul. Tome um brandy com lasca-de-canela. Evite sereno nas costas. Divirta-se no Brasil porque, para nós, o povo brasileiro, está cada vez mais difícil sorrir. Espero revê-lo em breve. Recomendações à Nancy. Mamãe e Harold, o louva-deus, mandam lembranças. Com carinho, para sempre,
Eberth Vêncio.
*            *            *

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Um domingo de reflexões...

EDUARDO CARLI DE MORAES em "Novos 'Ensaios Sobre a Cegueira' " 

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“A Humanidade como Fraternidade permanece no horizonte das utopias. 
A cada passo em sua direção que damos, para relembrar um célebre dito de Eduardo Galeano, a utopia dá dez passos para trás. Como se fugisse do abraço. Como se quisesse forçar-nos a ser camelos no deserto, em busca de oásis incerto, pelos séculos e milênios. 
Já são mais de 3 décadas desde que John Lennon imaginou, sentado ao piano branco, que não haveria mais céu nem inferno, apenas uma “brotherhood of man”. Mas ele, que só estava dizendo “dê uma chance à paz”, acabou assassinado.

Outro célebre pacifista, que peregrinou de pés descalços por toda a Índia, tentando ensinar a hindus, muçulmanos e sikhs a arte da convivência pacífica e do respeito à multiplicidade e à diferença, dizia: “O olho-por-olho vai deixar o mundo todo cego.” A triste verdade é que a cegueira venceu e também Gandhi foi assassinado, tendo seu ideal tripudiado pela catástrofe histórica da Partição Índia / Paquistão: em 1947, o pior dos pesadelos gandhianos se tornou realidade quando estourou a guerra civil entre hindus e muçulmanos. O saldo trágico do conflito: mais de 1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de refugiados.

Invocar uma canção de Lennon, um dito sábio de Gandhi, um convite à caminhada de Galeano: de que serve isso diante da desumanidade?
(...)
Cantar sobre a beleza das flores e dos pássaros algum dia já impediu os tanques-de-guerra de marcharem sobre os jardins e de metralharem os sabiás? 
Clamar para que o valor da vida humana seja respeitado é o bastante para dissuadir os homens (...) com licença-para-matar?
(...)
No fundo, as pessoas aderem a uma certa identidade, vestem uma certa máscara, introjetam uma certa ideologia, e depois se esquecem de que, na origem, a doutrina religiosa ou política que transformaram em dogma é fruto de um condicionamento social, dependente de um tempo-espaço histórico específico. 
Este caminho para a convivência pacífica que tento pensar passa necessariamente por des-dogmatizar as identidades – ou seja, precisamos deixar de levar tão a sério as nossas identificações identitárias com religiões, raças, pátrias etc.
As identidades sólidas, a filiação dogmática a seitas e ideologias, a incapacidade de enxergar o que nos une ao invés do que nos separa, tudo isso precisaria ser transcendido para que fôssemos capazes de nos perceber como conviventes sob o mesmo sol, todos juntos no mesmo planeta, todos iluminados pela luz distante da mesma miríade infindável de estrelas.
(...)
Seria preciso que enxergássemos, para além de nossa cegueira habitual, já encrustada nas retinas e nos neurônios, que ninguém está condenado, do berço ao túmulo, a ser algo de fixo – judeu, muçulmano, cristão, budista, ou o que quer que seja. Que uma identidade não só pode, mas deve ser fluida, móvel, mutante. Que não há nada mais sábio do que mudar acompanhando a mudança do mundo. 
Que viver é deixar-se afetar e crescer pelas interações e contatos com os outros. Que coexistência é nossa condição ontológica, nossa necessária situação no mundo, e que aprender a conviver é aprender a viver.
(...)
Há algum tempo, o escritor indiano Salman Rushdie, após a publicação de seu romance “Os Versículos Satânicos”, foi fulminado pela fatwa (pena de morte) decretada pelo aiatolá xiita do Irã, só podendo sobreviver por ter recebido guarida na Inglaterra. 
Rushdie defendeu-se das perseguições do regime de Khomeini com as seguintes palavras – sublimes – de seu livro “Pátrias Imaginárias”:

 Os Versículos Satânicos celebra a hibridez, a impureza, a mistura, a transformação que provém de novas e inesperadas combinações de seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções. 
Exulta com o cruzamento de raças e teme o absolutismo do Puro […] 
Certamente que não põe em causa os direitos das pessoas à sua fé, embora eu não tenha nenhuma. 
Discorda manifestamente das ortodoxias impostas de todos os tipos, da opinião que o mundo é muito claramente Isto e não Aquilo. 
Discorda do fim do debate, da disputa, da discordância. 
Discorda também do sectarismo comunalista hindu, do tipo de terrorismo sikh que faz explodir aviões, das fatuidades do criacionismo cristão, bem como das definições mais limitadas do Islã […] 
É uma canção de amor aos nossos eus mestiços…’

Cantemos, pois, nossas canções de amor a nossos eus mestiços!”

*            *            *


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Uma aula de gramática poética por Cecília de Meireles

O livro da solidão
Cecília Meireles, crônica no livro “Cecília Meireles – Obra em Prosa – Vol. 1”, 
Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1998, p. 270.


Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: “Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta…?”

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: “Uma história de Napoleão.” Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio… Pode ser um passatempo…

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo… E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém…

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números…

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas…

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores…

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

(São Paulo, Folha da Manhã, 11 de julho de 1948.)

*            *            *



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A vida é dura... - Eberth Vêncio em 'Revista Bula'

A vida é dura e nos reserva incontáveis caneladas
Eberth Vêncio - em 'Revista Bula'

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Não posso dizer que sinta orgulho das minhas metas pessoais para o ano novo. Vender o carro. Acordar mais cedo. Trabalhar além das 44 horas semanais regulamentares. Pagar dívidas. Juntar dinheiro. Sinto um especial prazer em quitar uma duplicata. 
Quem é que me explica isso? 
Meu analista está operando na bolsa. Talvez, eu opere o saco com o Doutor Jivago. 
Pensando bem, é um privilégio estar com saúde suficiente para defender uns trampos e ir tocando em frente até quando o governo quiser. Trabalhar até morrer. Então, é isso. 
A vida não está para poesia. Provavelmente, nunca esteve. Mesmo assim, uma cena inspiradora me afeta: um sujeito passa por mim saltitando, socando o ar. É como se fizesse um gol depois de abrir o envelope e se deparar com a conclusão do laudo laboratorial, impresso em letras garrafais: NEGATIVO. Este sabe viver. Se não sabe, acaba de ganhar uma nova oportunidade.

Rango na lanchonete. Muvuca de gente. Engulo sapos pra variar. Um guri dos mais minúsculos aponta-me o polegar direito para cima enquanto suga um sorvete. “Tudo joia, moço?”. Devolvo a mímica com um econômico sorriso no rosto. É o máximo que consigo no final do mês. 

Olhando com cuidado, parece, sim, restar vestígios de positividade no ar. 
Uma mulher jovem e atraente, uma típica personagem daqueles filmes noir, repreende o pirralho por ter lambrecado a roupa com sorvete derretido. “Dá de mamar pra ele”, eu penso que adoraria ver as suas tetas. Existe aí uma treta. As mães pensam que sabem tudo, as mães pensam que podem tudo, mas, elas não sabem nada, as mães não podem quase nada além de serem reverenciadas pelos filhos até os ossos. 
A vida é dura e nos reserva incontáveis caneladas.

Por exemplo: não sou um bom exemplo de ser humano. Perdi os óculos. Perdi a fé. 

Alguns bons amigos perderam os empregos e agora integram uma vergonhosa cambada com milhões de desempregados. Muitos querem se mudar do país, quem sabe, para Portugal, a nossa pátria mater. Puta que o pariu! Quisera conhecer Lisboa, Coimbra e a Cidade do Porto. Cheiro de bacalhau é foda. Prefiro picanha. Não quero me mandar. Eu preciso mesmo é me mudar, mas, me mudar por dentro, colocando os pingos nos “is”, os rancores nos cofres do esquecimento e os pensamentos no lugar.

Lucubro. Sei que divagar me leva longe. Tenho pressa. Tanta pressa embota os meus sentidos. 

Não tenho sentido muito mais do que saudades do moço que um dia eu fui, apesar da frivolidade, da ingenuidade e da típica prepotência juvenil. Prefiro um mancebo arrogante do que um velho cínico. O que seria do mundo sem a intrepidez dos jovens? Nada além de um traste entristecido esperando ser aceito no céu. Houve um tempo em que eu quis mais. Eu esperava mais de Deus, pra se ter uma ideia.

Já tive ambições maiores do que conseguir acertar as contas com o Tesouro Nacional. É a quarta vez no dia que me convidam para um bolão de loteria. Mas, que porra é essa? Que diabo de gente chata é essa que sonha em ser milionária para a vida fazer sentido? Sinto comunicar que rico é aquele que encontra grandeza nas miudezas da vida. Quase ninguém concorda. A não ser, nos últimos estertores, quando prestes a realizar “a grande travessia”. Grande merda. Acho isso tão triste como um tango. É por isso que eu não danço. Mas, eu escrevo. Como se fosse uma espécie de Manoel de Barros com dor no ciático.


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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Drummond - "A Banda", de Chico Buarque



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"O jeito no momento é ver a banda passar, cantando coisa de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mais subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vêm trazendo, Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, a falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a ideia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto de Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da Arena nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se a banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingativos e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira.

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrangem terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro... todos os que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicar a alma da gente".
*            *            *

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Jornal 'Correio da Manhã', por ocasião do II Festival de Música Popular Brasileira / TV Record / 1966.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Casa de Mãe Quando Os Filhos Se Vão


Casa de mãe depois que os filhos se vão
Texto atribuído a Miryan Lucy Rezende

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Casa de mãe depois que os filhos se vão é um oratório. Amanhece e anoitece, prece. Já não temos acesso àquelas coisinhas básicas do dia a dia, as recomendações e perguntas que tanto a eles desagradavam e enfureciam: com quem vai, onde é, a que horas começa, a que horas termina, a que horas você chega, vem cá menina, pega a blusa de frio, cadê os documentos, filho.

Impossibilitados os avisos e recomendações, só nos resta a oração, daí tropeçamos todos os dias em nossos santos e santas de preferência, e nossa devoção levanta as mãos já no café da manhã e se deita conosco.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é lugar de silêncio, falta nela a conversa, a risada, a implicância, a displicência, a desorganização. Falta panela suja, copos nos quartos, luzes acesas sem necessidade…

Aliás, casa de mãe, depois que os filhos se vão, vive acesa. É um iluminado protesto a tanta ausência.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre o mesmo cheiro. Falta-lhe o perfume que eles passam e deixam antes da balada, falta cheiro de shampoo derramado no banheiro, falta a embriaguez de alho fritando para refogar arroz, falta aroma da cebola que a gente pica escondido porque um deles não gosta ( mas como fazer aquele prato sem colocá-la?), falta a cara boa raspando o prato, o “isso tá bão, mãe”. O melhor agradecimento é um prato vazio, quando os filhos ainda estão. Agora, falta cozinha cheia de desejos atendidos.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um recorte no tempo, é um rasgo na alma. É quarto demais, e gente de menos.

É retrato de um tempo em que a gente vivia distraída da alegria abundante deles. Um tempo de maturar frutos, para dá-los a colher ao mundo. Até que esse dia chega, e lá se vai seu fruto ganhar estrada, descobrir seus rumos, navegar por conta própria com as mãos no leme que você , um dia, lhe mostrou como manejar.

Aí fica a casa e, nela, as coisas que eles não levam de jeito nenhum para a nova vida, mas também não as dispensam: o caminhão da infância, a boneca na porta do quarto, os livros, discos, papéis e desenhos e fotografias – todas te olhando em estranha provocação.

Casa de mãe depois que os filhos se vão não é mais casa de mãe. É a casa da mãe. Para onde eles voltam num feriado, em um final de semana, num pedaço de férias.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um grande portão esperando ser aberto. É corredor solitário aguardando que eles o atravessem rumo aos quartos. É área de serviço sem serviço.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre alguém rezando, um cachorrinho esperando, e muitos dias, todos enfileirados, obedientes e esperançosos da certeza de qualquer dia eles chegam e você vai agradecer por todas as suas preces terem sido atendidas.

Por que, vamos combinar, não é que você fez direitinho seu trabalho, e estava certo quem disse que quem sai aos seus não degenera e aqueles frutos não caíram longe do pé?

E saudade, afinal, não é mesmo uma casa que se chama mãe?

*            *            *

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Nas sombras da internet - IVAN ÂNGELO

Nas sombras da internet
IVAN ÂNGELO - Revista 'Veja São Paulo', 01 de abril 2018


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Ilustração: Negreiros



Existe um lugar sombrio na rede mundial, onde cavalgam os novos bárbaros com suas espadas de ódio e suas línguas de maldizer.

Lá é onde cada um deles comete seus furtivos pecados, é onde fica seu abrigo secreto, seu esconderijo, o armário onde se resguarda, onde, camuflado, faz seus feios fazeres.
É onde diz o indizível, espia o interdito, namora espelhos e secretamente, mas ó com que excitação, busca e deseja seus iguais.
É onde chicoteia negros (ó, não mais “seus” negros, maldita princesa Isabel!), sevicia mulheres, pisoteia destituídos de bens e de poder, difama os divergentes.
É o beco onde chuta cachorro morto dando risada.
É o ermo onde dá o quinto tiro na cabeça da vereadora assassinada.
É o território do falso, por onde circulam as notícias falsas, as falsas reputações, a moeda falsa, a falsa virtude, as nuvens de pó, os inconfessáveis encontros marcados, os endereços para a entrega das malas de dinheiro e das moças de falsa inocência.
É onde trafegam espiões e chupa-cabras, bisbilhotando, invadindo, copiando, adulterando, montando, espalhando, vendendo, jogando nas redes o que quer que seja ou pareça comprometedor, ou que possa levantar suspeitas, ou que possa corroborar uma suspeita.
É de onde justiceiros de reputações disparam suas mensagens de quarenta palavras-bala, que ricocheteiam e vão ferindo incautos em louco zigue-zague.
É a esquina do maldizer, da língua preta, da língua de trapo, da língua de fogo, a enxovalhar com sua baba fétida a vida e a imagem das pessoas públicas.
Fica lá, nessa zona escura, a cadeira de dragão dos porões cibernéticos, onde delegados fleurys fazem sofrer por prazer sádico, riem ao fritar nomes, relações, amizades, fidelidades.
É onde cada um deles marca encontro para espancar até a morte o torcedor do time adversário, não importa se pai ou filho como todos nós, como todos eles, naquele momento é apenas um portador da bandeira ou camiseta odiada, e eles dão o pau conforme combinado na rede social, pau, pau, pau nele sem dó.
É onde se trama a ameaça aos ministros e o ataque às caravanas.
É onde jovens manifestantes de negra intenção e máscara ninja marcam encontros para vandalizar, quebrar, queimar, bagunçar, machucar, anarquizar e onde, mais tarde, na mesma zona sombria, contabilizam eufóricos seus estragos, como se vitórias fossem.
É onde campeiam capitães de mato da nova estirpe à caça de gays, de defensores de direitos, de libertários, de militantes da ecologia, de feministas, de vozes que cobram compromissos sociais dos políticos, para contra eles açular matilhas raivosas.
Escondem-se nessas moitas da rede os doentios divulgadores de fotos furtadas de celebridades peladas.
É onde os pescadores de dinheiros — eis aí os verdadeiros pescadores de águas turvas — lançam suas iscas para capturar transferências, números de contas bancárias, de cartões, senhas.
É desde esses pastos de urtigas que pastores aproveitadores e de má conduta, comandando batalhões de anjos caídos, pastoreiam ingênuos de boa-fé com propósitos de lucro, supremacia e poder.

Ali, nesse ambiente sombrio, não valem argumentos nem razões: é o lugar dos gritos de guerra. Vale difamar, acusar sem provas. 
Rolam discursos de ódio e preconceito. 
A verdade é morta a pauladas, a lógica toma chutes no traseiro, os fatos são esganados até perderem os sentidos, o direito é expulso a pontapés. 
E estamos nisso.
*               *               *

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Neste período eleitoral - (Haja paciência!)

O país que precisa de mitos
PAULO CASSIANO JÚNIOR – página  ‘Jornal Terceira Via’


“Desde os primórdios, o ser humano sempre buscou explicação para a realidade. 
Na Grécia Antiga, quando o conhecimento era transmitido basicamente por tradição oral, os narradores (rapsodos) valiam-se de relatos fantasiosos que pretendiam elucidar ou justificar a origem do mundo, a condição do homem, o estado das coisas e os fenômenos naturais. Essa ferramenta simbólica utilizada para disseminar o conhecimento era o mito.

Uma das características da narrativa mítica era a presença do elemento misterioso. Como os rapsodos eram pessoas tidas como divinamente inspiradas e, portanto, dignas de toda confiança, seus ouvintes não encontravam incongruências em suas histórias fantásticas e sagradas. 
Questionar o mito implicava contradizer os próprios deuses. Ancorado na fé, o mito predominou até que alguns começaram a lançar sobre ele um olhar crítico, problematizador e radical. Nascia aí a filosofia.

Apesar de a narrativa mítica ter sido superada pelo pensamento filosófico, o mito sobreviveu aos tempos e agregou hoje uma outra acepção. 
Popularmente, o mito moderno designa toda pessoa detentora de poderes e habilidades superiores, capaz de alcançar feitos extraordinários. Nesse sentido, é mito quem saca uma ideia genial para resolver um problema complexo. Ou quem lança uma última palavra capaz de encerrar uma discussão travada. 
O mito é sempre aclamado pela multidão. O mito é encantador, carismático e portador de valores nobres. O mito é a síntese da virtude.
(...)
Quem trata homens de carne e osso como mitos precisa fechar os olhos para as limitações que eles apresentam e os erros que eles cometem. 
Tal como na Grécia antiga, o mito moderno só se sustenta com o ingrediente da fé, inacessível pela razão. 
Só assim os bolsonaristas ignoram o discurso sectário e antidemocrático de seu candidato. 
Também por isso os lulistas fingem não ver as evidências de corrupção partidária e enriquecimento pessoal que o ex-presidente protagonizou,
(...)
No fundo, a ânsia dos brasileiros por um salvador da pátria expõe a imaturidade da nossa cidadania. 
Ao erigirmos ídolos sobre quem recairão todas as nossas esperanças de redenção, sentimo-nos confortáveis para darmos descanso a nós mesmos da árdua tarefa diária de construção de uma nação melhor. 
O país que precisa de mitos revela a fragilidade de sua própria democracia. 
Nós não necessitamos de líderes messiânicos, mas de instituições fortes. 
Afinal, no reino dos humanos, todos os mitos possuem pés de barro.”

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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Os benefícios do mar

Os benefícios do mar
Luiza Fletcher • 15 de fevereiro de 2018, site 'O Segredo'


Todos aqueles que já estiveram frente ao mar pelo menos uma vez na vida, podem comprovar o quão maravilhoso é.
O mar nos faz sentir-nos conectados a algo maior, aumenta nossa alegria, nos faz refletir sobre nossas vidas e pode nos inspirar a buscar aquilo que verdadeiramente desejamos.
No entanto, seus benefícios vão além disso. 
O mar também pode nos trazer mais felicidade, aumentar nossa qualidade de vida e beneficiar nossa saúde física e mental.

Abaixo estão 8 benefícios do mar para nossas vidas, comprovados pela ciência.

1. Morar perto do mar ajuda a reduzir o estresse e induz a uma melhor qualidade de vida, é o que comprova um estudo da Nova Zelândia, que também mostrou que a cor do mar pode ajudar a diminuir estresses psicológicos.

2. O mar pode melhorar o funcionamento do nosso sistema respiratório, através do ar salgado entre as ondas. Alguns estudos comprovam que os sintomas de condições como asma e bronquite podem ser reduzidos quando estamos próximos do mar.

3. Algumas pesquisas científicas mostram que o mar pode nos incentivar a praticar atividades físicas, o que ajuda a melhorar nossa saúde por completo.

4. Nossos níveis de serotonina se equilibram perto do mar, graças ao ar oceânico, que contém íons de hidrogênio carregados negativamente. Dessa maneira, sentimos mais energia, dormimos melhor e nos sentimos mais felizes.

5. Um estudo inglês comprovou, através de experiências, que moradores de cidades litorâneas têm uma saúde melhor e vivem por mais tempo. Além disso, mostrou que as pessoas tendem a se sentirem mais saudáveis quando estão na praia.

6. Um estudo da Universidade de Exeter, na Inglaterra, mostrou que os sons do mar ,melhoram nossos sentimentos de bem-estar e autoconhecimento, porque ativam o córtex pré-frontal do cérebro, área associada às emoções e autorreflexões.

7. Estando perto do mar, temos mais propensão ao contato com o sol, o que aumenta nossa exposição à vitamina D, que melhora nossa saúde e nos previne de condições como o câncer.

8. Perto do mar, o ar é mais puro, mesmo quando está localizado dentro de uma grande cidade. O benefício do ar puro para a qualidade de vida é muito claro, não precisa de justificação científica.

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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Incêndio Museu Nacional do Rio de Janeiro

Vergonha de ser brasileiro
Octavio Caruso - 3 de setembro de 2018


Triste noite. O incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro é o símbolo de uma cidade abandonada. Vejo da janela as chamas, o local tão lindo que visitei tantas vezes, desde criança nas excursões escolares, dois séculos de história perdidos para sempre.
A cultura chora, tentando resistir à estupidez de um povo que, por décadas, elegeu governantes e prefeitos incompetentes. Que país vergonhoso.

Um patrimônio inestimável perdido em questão de horas. “Nação”? Não, um esgoto a céu aberto. Um povo que não valoriza cultura, que despreza a memória. Uma classe política nojenta, reflexo cristalino de seus eleitores. Vergonha!

A notícia é inacreditável. “Bombeiros estão com dificuldade para combater o fogo por FALTA DE ÁGUA NOS HIDRANTES”. 
Há testemunhas que viram bombeiros chorando porque as mangueiras estavam com furos. Bravos e valorosos profissionais, infelizmente prejudicados por um sistema podre.
(...)

Postei as mensagens acima na noite de ontem, enquanto via pela janela (...) a destruição do Museu Nacional. A revolta é grande, a vontade é desistir deste país. 
Acordo todos os dias pensando em maneiras de propagar cultura, valorização da memória e o amor pelo garimpo intelectual, mas grande parte do povo não merece este tipo de atitude.
(...) A classe política é nojenta e reflete de forma cristalina o modus operandi de grande parte do povo. 
O descaso não é responsabilidade de um governo, como muitos oportunistas sem caráter tentam agora defender, mas de todos aqueles que limparam os traseiros com a bandeira brasileira nas últimas décadas. 
Eu tenho moral para esbravejar porque vivo cultura e sempre me posicionei de forma coerente no tema e, principalmente, porque, por 10 anos, perdi noites de sono, sem folga, sem férias, sem finais de semana, trabalhando em minha área e sabendo que não recebia remuneração alguma, motivado pela esperança de que os meus esforços pudessem inspirar outrem, para que, em longo prazo, a situação nacional fosse menos deplorável. 
Ao contrário do prefeito, que concede entrevistas hoje com um quase sorriso no rosto, demonstrando desconhecer (ou desprezar) o valor inestimável do material que se perdeu no incêndio, reduzindo o local ao seu valor histórico como Palácio Imperial, choro ao lado de todos aqueles profissionais que dedicaram suas vidas à sobrevivência deste patrimônio, contra todas as probabilidades, e, mais, choro pelas crianças que ainda vão nascer nesta terra sem honra. Não há como reconstruir o que se perdeu. 
O que resta é apenas uma vergonha profunda de ser brasileiro.


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terça-feira, 7 de agosto de 2018

A alma antiga

Da página APost , sem assinatura de autoria


Algumas pessoas parecem ser sábias demais para sua idade e muitas vezes preferem viver tranquilamente, enquanto observam a vida à distância. Essas pessoas pacíficas e estáveis são frequentemente consideradas detentoras de almas antigas. Acredita-se que elas tenham internalizado a sua visão do mundo de vidas passadas.

Almas velhas experimentam a vida de forma diferente das pessoas que as cercam e geram sentimentos de paz e calma em um mundo caótico. Sua natureza iluminada faz com que pensem e reajam de maneira diferente do restante de nós. 

Almas antigas têm amizades duradouras

Frequentemente, o detentor de uma alma antiga pode sentir que tem pouco em comum com pessoas da sua idade. Almas velhas não parecem estar interessadas nos tipos de atividades ou buscas daqueles com quem convivem. Em vez disso, a alma antiga vai procurar a companhia de um grupo seleto de poucas pessoas com as quais se identifica. Almas antigas procuram amigos com os quais se conectam por causa da afinidade entre seus espíritos.

Almas antigas seguem seu próprio caminho

O detentor de uma velha alma raramente parece fazer o que se espera dele. Ele parece dar pouco valor a buscas materialistas. Ele não está à procura de poder ou riqueza. Em vez disso, dirige-se em direção à sua própria autorrealização e à verdadeira felicidade. Essas almas antigas são frequentemente espiritualizadas, conectadas e instruídas.

Almas antigas se adaptam com facilidade

A alma velha é uma observadora e rapidamente se adapta a novas situações. Elas podem se achar excluídas e mal compreendidas nesta vida, mas não são anti-sociais. As almas antigas são naturalmente curiosas. Essa curiosidade frequentemente as leva a conversas mais significativas e menos superficiais. Se a alma velha não puder conduzir uma conversa para uma direção significativa, ela pode abruptamente encerrar a conversa e seguir seu caminho.

As almas velhas buscam conhecimento

O possuidor de uma velha alma é um intelectual. Para ele, o conhecimento traz sentimentos de felicidade e poder. Ele gosta de analisar todas as situações, esforçando-se para continuar aprendendo valiosas lições de vida. A alma antiga nem sempre tem que estar correta em suas crenças. Ela gosta de ter seus pensamentos e crenças desafiados pelos outros.

A alma antiga é espiritualizada

Almas antigas estão continuamente buscando a iluminação espiritual. Isso não precisa significar que se dediquem a uma religião. Elas podem estar em sintonia com muitas crenças e rituais antigos. Estão em busca de tradições e conexões espirituais que lhes tragam a verdadeira felicidade.

A alma antiga vê vida para além do presente

Aqueles que têm uma alma velha vivem sua vida sem complicá-la com detalhes do presente. Eles vêem a vida como uma série de consequências de uma série de ações. Em vez de se concentrarem só no dia de hoje, pensam mais à frente do que as pessoas que os rodeiam costumam fazer. Isso lhes dá uma perspectiva incomum e uma compreensão diferente de como o mundo funciona. A mente da alma antiga raramente se encontra obstruída por materialismo ou vaidade.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

'Lua de Sangue' - 27 de julho 2018

Foto campeã e histórica do Eclipse Lunar Total e do Periélio de Marte do dia 27/07/2018, sobre o Rio de Janeiro.

Por mera coincidência simbólica, o fenômeno foi registrado sobre a Urca, bairro onde está localizado o IED (Istituto Europeo di Design), o mais novo local da Astronomia no Rio de Janeiro, onde o CARJ realiza suas Observações, Palestras e Workshops.


Foto: Carlos Fairbairn © —  Rio de Janeiro.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

DESIDERATA - Max Ehrman

Desiderata é uma palavra de origem latina que significa “aquilo que se deseja”

DESIDERATA
Max Ehrmann 
Tradução: Iva Sofia Gonçalves Lima

Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, 
lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

Tanto quanto possível, sem se humilhar, 
mantenha boas relações com todas as pessoas.
Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, 
mesmo a dos insensatos e ignorantes, 
pois eles também têm sua própria história.

Evite as pessoas escandalosas e agressivas. 
Elas afligem o nosso espírito.

Se você se comparar com os outros, 
tornar-se-á presunçoso e magoado, 
pois haverá sempre alguém superior 
e alguém inferior a você.

Você é filho do Universo, 
irmão das estrelas e árvores. 
Você merece estar aqui, 
e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo 
vão cumprir o seu destino.

Desfrute das suas realizações, 
bem como dos seus planos. 
Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, 
pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo.
Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, 
mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá. 
Muita gente luta por altos ideais e 
em toda a parte a vida está cheia de heroísmo.

Seja você mesmo, principalmente. 
Não simule afeição. 
Não seja descrente do amor,
 porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto 
ele é tão perene quanto a selva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos 
e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude.

Alimente a força do espírito 
que o protegerá no infortúnio inesperado, 
mas não se desespere com perigos imaginários. 
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, 
e a despeito de uma disciplina rigorosa. 
Seja gentil para consigo mesmo.

Portanto, esteja em paz com Deus como quer que você o conceba 
e quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações.
Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, 
apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. 
O mundo ainda é bonito.

Seja prudente 
e faça tudo para ser feliz!
***


DESIDERATA
Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.
As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even the dull and the ignorant;
they too have their story.

Avoid loud and aggressive persons,
they are vexations to the spirit.
If you compare yourself with others,
you may become vain and bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.

Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.
Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.

You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.

With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.
*            *            *

– Max Ehrmann, em “Desiderata: um caminho para a vida”. [tradução Iva Sofia Gonçalves Lima]. Edições de Bolso. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2006. (Max Ehrmann, Desiderata, Copyright 1952).