segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Dor maior - trilha na série 'Justiça'




OH PEDAÇO DE MIM
Chico Buarque de Holanda

Análise: José de Matos - Médico Psiquiatra Psicanalista


Autêntica elegia à dor como expressão afetiva, a canção de Chico tem a forma melódica de um réquiem à perda definitiva, sem esperança de restauração.
Compōe uma peça artistica de maior pungência do cancioneiro brasileiro.
A extensão do texto exige sua fragmentação para melhor análise:

Começa a música revelando um ego despedaçado


Oh pedaço de mim

Aqui define-se o despedaçamento e o quê se perde sob a forma de olhar, sinais, vulto e presença.


Oh metade afastada
exilada
arrancada
amputada
adorada
de mim,
Leva o teu olhar
teus sinais
o vulto teu
o que há de ti
os olhos teus

Aqui, a dor da saudade, define-se como tormento mais dramático que o esquecimento ou uma vida vegetativa.


Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do se entrevar

Aqui a dor da saudade equivale a uma partida, uma ida cujo retorno é desconhecido


Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Neste ponto, o revés do parto, é o nascimento para a Morte em que o último cuidado é o de arrumar um quarto que nunca será ocupado por um filho!


Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Nesta colocação, a dor, enquanto presença incômoda, é melhor do que a amputaçao, representando uma perda irreparável.


Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Encerra-se a música em que saudade é um castigo, como um traje fúnebre que decrete a morte do Amor para todo o sempre!


Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor

A despedida é fechada com a derradeira saudação: ADEUS!

Nossa homenagem a mestre Chico!!!
**
José de Matos
Médico Psiquiatra Psicanalista

sábado, 27 de agosto de 2016

Resenha 'As meninas' (Lygia F.Telles) - por Laís Calusni

As meninas e o estiramento da realidade
Laís Calusni

Lygia Fagundes Telles

Inúmeros são os relatos, reais ou ficcionais, sobre as atrocidades que se passaram nos famosos “porões” da ditadura militar brasileira. Narrativas e textos críticos ou sociológicos, que buscam esmiuçar e expor cada mínimo detalhe violento do que se passou nos bastidores desse período. Sobre as vítimas mais diretas dos torturadores e da ditadura como um todo muito já se falou, e muito ainda há de ser dito. Muito já se disse e escreveu também sobre a parcela da população que, supostamente, não sabia/compreendia o que se passou no país durante os anos de chumbo. De crianças a idosos, passando por membros das parcelas mais abastadas da sociedade aos mais humildes, e de vidas mais discretas/isoladas das grandes metrópoles econômicas e políticas.

Mesmo após tanto se escrever e estudar os mais diversos perfis que se envolveram, ou deixaram de se envolver, nessa luta diária e violenta, Lygia Fagundes Telles parece ter encontrado se não uma nova “camada social”, um novo jeito de olhar a juventude daquela época. Em As Meninas, a autora expande a narrativa para além da esfera ditatorial na vida pessoal dos jovens do período. 
Lygia focaliza ainda mais o interior de suas personagens, indo o mais adentro que sua estrutura narrativa lhe permitiu, explorando cada pensamento sombrio e imediato que ocorre a suas meninas.


Lia, Lorena e Ana, três jovens universitárias que moram em uma espécie de convento/pensão em São Paulo, no início da década de 70. 
São todas meninas de dezenove ou vinte anos que, como a maior parte da juventude estudantil daquela época, estavam atoladas até o pescoço em mentiras, segredos e uma asmeninasvida “paralela” pela qual deviam zelar.

Seu foco se concentra na vida cotidiana, nas pequenas opções que costuram a existência ainda que a sombra pesada da vida política se faça presente em cada linha […]” 
(Posfácio de Cristovão Tezza à edição revista pela autora (2009) da Companhia das Letras.)

É desse foco diferenciado para a literatura da época que Lygia Fagundes Telles cria toda a magia que permeia o romance, e o torna ao mesmo tempo tão simples e tão emudecedor. 
Não é o caso de o leitor penetrar no mundo íntimo das três meninas; acontece que é apenas isso que há. 
Todo o fervor político, as guerrilhas e o contexto violento do qual já se tem conhecimento, é uma camada pesada que está presente em todos os pensamentos, em todas as ações, mas de forma coadjuvante. Está ali apenas para dar o clima soturno da época, sem pesar o suficiente para acabar com as cotidianidades das personagens.

Acompanhamos o mundo romântico de Lorena, eternamente aguardando o telefonema de seu amante casado; a vida não convencional de Ana Clara em meio a sexo casual e drogas; e a luta de Lia (Lião) para se encontrar com seu namorado, um preso político prestes a ser solto em uma troca entre os guerrilheiros e o governo. E não sabemos nada além daquilo que seus pensamentos nos revelam, estamos inteiramente confinados a suas ideias tendenciosas, suas opiniões momentâneas umas sobre as outras, seus desejos repentinos e efêmeros, suas preocupações diárias fúteis. 
Isso tudo intercalado com longos diálogos sobre a vida, suas escolhas e erros, sempre rasos e cheios de referências que escapam aos leitores – se não reveladas pelos pensamentos imediatos das protagonistas. 
Assim correm os dois dias narrados por Lygia em sua obra.

Contudo, há um fio paralelo, um movimento interno das personagens que passa despercebido por elas – e quase, para o leitor. 
Está entre esse mundo interno e a realidade violenta lá fora, no limite que seus jovens pensamentos nos permitem apreender; e aquilo tudo que já se sabe, por outras fontes, estar acontecendo na cidade. As meninas vão aos poucos sendo esticadas, sutilmente levadas ao limite de seus próprios “eus”. 
Os constantes conflitos morais internos e familiares, o rompimento com tudo que seria esperado delas – social e familiarmente -, a luta por si, suas vontades e seus amores; esse retrato 3×4 de uma geração que tomou como missão desestabilizar todos os padrões até ali aceitos e passados adiante. 
O estar e não estar de acordo, no caso de Lia e Lorena, e o ser nada no caso de Ana Clara, tudo isso se rompe e acaba no final trágico e imprevisível de Telles.

A morte de Ana por overdose, bem na cama do quarto de Lorena no convento. 
A jovem símbolo de todo o desapego e da rebeldia, a única que “cumpriu” com as expectativas de sua geração para si própria; aquela que era peça solta dentro do romance faz sua aparição final para unir todas as pontas soltas, e finalizar todos os rompimentos. 
Lia estava prestes a concretizar sua fuga de encontro a seu namorado, Lorena já voltara a fixar seu pensamento na ligação de seu amante que jamais acontecia. 
Tudo entrava direitinho na ordem rebelde que deveria, até o momento da morte.

Como uma explosão interrompida, as duas protagonistas restantes entram como que em um ruído branco, desligam-se de toda a realidade a sua volta para decidir o que fazer com o corpo. 
A luta pela manutenção das aparências, o manter-se inocente e puro aos olhos dos outros, a incapacidade de empatia: tudo retorna em um jorro alucinante de incertezas, xingamentos e até orações. 
O símbolo da libertação está morto, as sobreviventes lutam para não o reconhecer como real. Abandonada em uma praça, Ana Clara faz sua última aparição; Lia e Lorena, ainda com sentimento de fuga, retomam seus planos.

Lygia nos leva ao limite junto com as meninas. Nos faz questionar até que ponto a negação de uma realidade, ou a luta pela fuga ou por um rompimento, nos altera sem que ao menos possamos perceber. 
A restrição gradual do pensamento, que passa a abarcar apenas o que nos interessa, nos conforta, cria em nós o movimento contrário de estiramento, de distanciamento ilusório da realidade. 
Até que tudo estoura em frieza palpável, tornando impossível continuar envolto unicamente naquilo em que se quer crer.

*            *            *

Palavras, palavras....

O que importa na política
Rubem Alves

"Não existe ideal político mais bonito que a Democracia. Porque ele se baseia na idéia de que o povo tem o direito de decidir sobre os rumos desse barco em que navegamos, e que se chama país.
É preciso cuidar dele porque há suspeitas de que seu casco esteja furado…
Os partidos políticos são as várias tripulações que disputam o controle do barco.

O problema é que todas as tripulações dizem a mesma coisa. Todas prometem consertar os furos do barco, todas prometem navegar na direção do mesmo porto.
E é o povo que deverá escolher a tripulação que vai cuidar do barco e fazê-lo navegar na direção do porto prometido.
Se o povo escolher a tripulação errada, ai de nós: barco furado, naufragado, o povão se afogando…
O que os partidos estão dizendo não faz diferença, porque todos prometem a mesma coisa.

A coisa se complica quando a gente examina a composição das tribulações. Meus Deus, que lapso freudiano acabo de fazer! Minha cabeça queria escrever “tripulação” mas meus dedos escreveram “tribulação”… Com quem estará a verdade? Com a cabeça ou com os dedos? O futuro dirá…

O fato é que se consumam alianças que se acreditavam impossíveis: lobos pastando grama com cordeiros, gaviões chocando ovos de rolinhas, antigos piratas abraçados a pacíficos navegantes…

Coisa complicada é a Democracia, fácil de ser louvada, difícil de ser executada.
No final das contas o ideal da democracia entra pelo esgoto.

O fato é que os eleitores nem sabem o que está acontecendo e nem sabem quem é quem. O que eles sabem são as montagens que aparecem na televisão, produzidas segundo a psicologia das massas, a mesma que se usa para vender cerveja, sabão em pó e absorventes higiênicos.
Aquilo que o povo sabe é o que as imagens produzidas mostram.

O resultado das eleições vai ser, na realidade, a entrega do “Oscar” ao melhor filme: ganha o melhor ator, o melhor roteiro, o melhor diretor…

Cumpre-se o dito por Maquiavel: o que importa na política não é que o governante seja justo, mas que ele pareça ser justo. "

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"May be I, may be you"

Olá!
Senti vontade de comentar algo e escrevo aqui, mesmo que não tenham paciência para ler meus famigerados 'textões'. Sei que às vezes é chato mesmo.
"Tanta coisa pra fazer e ela vem com esse blablablá sem pé nem cabeça..."

De um tempo pra cá a modinha é descer a lenha na rede facebook. São artigos e artigos, crônicas, ensaios e o que mais houver insistindo na tecla da 'falsa felicidade' da 'ostentação da felicidade', da 'felicidade 24 horas',  esse tipo de coisa.
Ora, para mim, não faz a menor diferença se as postagens revelam ou não a verdade de cada um. A expressão se define: a verdade 'de cada um'. Ainda que sonhada apenas, não vivida, inventada, sei lá. E mais: nem tudo que se posta é realmente expressão do que se pensa ou se vive.
Sei é que me divirto e , muitas vezes, consigo preencher um certo tédio pois nem sempre tenho alguém com quem dividir as ideias, os pensamentos, as sensações do momento.

Outro dia, por exemplo, ao abrir o facebook, deparei-me com uma postagem do programa The Voice, na Ucrânia (distante, né?) -  um casal interpretando 'Maybe I, maybe you' , da banda Scorpions.
Tão lindas as vozes, tão forte a interpretação desses jovens igualmente lindos...

Foi o bastante para me motivar a revisitar - obrigada, Youtube - as músicas dessa banda que eu não ouvia há tempos. Agora estou aqui, bem felizinha, ouvindo Scorpions e cuidando da minha vida.



Pokémon GO segundo Nietzsche, Huxley e Bradbury


Pokémon GO Segundo Nietzsche, Huxley e Bradbury
Erik Morais - sexta-feira, 5 de agosto de 2016


No século XIX Nietzsche anunciou a morte de Deus, colocando, portanto, fim a um modelo de vida que pudesse ser estruturada por uma via religiosa. A bem da verdade, a dupla revolução burguesa do século dezoito, a saber, Revolução Francesa e Industrial, já havia derrubado os resquícios da sociedade feudal. No entanto, coube a Nietzsche dar o golpe de misericórdia, sendo que este não somente definhou aquela estrutura de pensamento, como também colocou em xeque o próprio modelo racional de perceber o mundo, que vivia com os positivistas o seu auge.

O sonhado progresso previsto pelos positivistas e todos entusiastas da modernidade não aconteceu, pelo menos não em um sentido que promovesse a evolução social de forma diretamente proporcional ao desenvolvimento tecnológico, isto é, proporcional às condições materiais. Sendo assim, a solidez dessa modernidade foi paulatinamente encontrando seu ponto de fusão e se liquefazendo, implicando, consequentemente, a confirmação do prenúncio de Nietzsche, no qual teríamos um futuro em que nem a religião, nem a razão seriam capazes de dar uma sustentação sólida à existência humana.

Posto isso, chegamos ao período pós-moderno ou a modernidade líquida como prefere Bauman, em que encontramos um mundo sem referências sólidas, no qual vivemos sem algo que proporcione sentido a nossas vidas. Nesse mundo do absurdo que não possui grandes propósitos, para lembrar Beckett, os indivíduos sentem-se desconfortáveis diante de uma liberdade infinita que caminha para o nada, já que, segundo Nietzsche, os homens sentem enorme dificuldade em viver sem ter algo em que possam apoiar a sua existência, o que ele chamava de muletas existenciais.

Percebendo a problemática e indivíduos desesperados por algo que possa proporcionar algum sentido a suas vidas, o mercado criou uma solução: a sociedade de consumo. O consumismo, assim, se tornou a grande base de sustentação existencial e os shoppings os templos de adoração de um novo fundamentalismo. Como a sustentação proporcionada através de coisas é frágil, novas coisas sempre devem ser criadas, a fim de manter os fiéis cativos aos templos de adoração, muito embora, a mídia não se esqueça da sua função catequizadora.

Nesse processo, encontra-se o Pokémon GO, mais uma ferramenta criada pelo mercado para manter acesa a fé das ovelhas. Obviamente, a ferramenta trata-se (ou deveria tratar) apenas de um jogo, uma forma de lazer. 
Entretanto, o modo desesperador como muitas pessoas ao redor do globo têm se relacionado com algo que é “apenas um jogo”, confirma a insustentabilidade da nossa existência e os meios frágeis que temos buscado para empreender um sentido a ela por meio dos artifícios da sociedade contemporânea, assim como, problemas típicos do nosso tempo como a solidão e o isolamento.

Esse comportamento leva ainda a outros questionamentos, como a questão do tempo, afinal, nós vivemos na era da correria em que ninguém possui tempo para nada, tampouco, para alguém. Como pode haver, então, tanto tempo disponível para se dedicar a um jogo? No mínimo paradoxal. Para Aldous Huxley, esse paradoxo é explicado pela própria estrutura do Admirável Mundo Novo, ou seja, os mecanismos criados dentro da sociedade têm como função elementar a massificação dos indivíduos, tornando o controle social mais fácil, posto a transformação da humanidade em uma grande manada.


Dessa maneira, há a necessidade de um gozo perene, o qual, em uma sociedade sem referências, passou a ser encontrado, como já dito, na sociedade de consumo. Nela, a fragilidade existencial passa a ser “fortificada” por meio da padronização, da adequação, da alienação e, quando isso não for suficiente, há ainda o “soma” que resolve todos os problemas, como o Pokémon GO, que além de proporcionar estabilidade emocional, ainda pode tornar o indivíduo alheio ao que acontece.

Essa fuga de uma realidade não querida é ressaltada também por Ray Bradbury e seus mundos distópicos, como Fahrenheit 451 e O Homem Ilustrado, em que uma série de artifícios, como televisões “interativas”, “superdesportos”, “parques de destruição”, etc., é criada para acalmar os espíritos e eliminar o desejo de pensar. Em outras palavras, instrumentos que acabam se tornando a finalidade de vidas totalmente automatizadas e sem qualquer senso crítico.

Enquanto ferramenta, não existe problema algum com o jogo, a questão se direciona ao modo como nós temos nos comportado. Ou seja, a forma como nós temos transformado instrumentos em finalidade e coisas no sentido de vidas. A forma como estamos cada vez mais dependentes do mundo virtual e alheios ao que acontece na vida real, buscando sempre fugir da dor da existência e das problemáticas relacionadas a ela. Mais uma vez, não há problema em si com o jogo ou com quem venha a jogá-lo, e sim ao modo como temos nos relacionado com coisas, como se fôssemos zumbis a procura de alimento.

Em um contexto líquido como o nosso, de falta de referências e fragilidade dos laços humanos, é necessário reavaliar de que modo temos através desse modus vivendi conseguido melhorar as nossas vidas e o quanto essa barafunda tecnológica-consumista tem nos permitido ter acesso de fato ao mundo. 
Sei que com todas as ressalvas ainda haverá a possibilidade da não associação do “fenômeno” Pokémon GO com o nosso contexto social, de tal maneira que só me resta lembrar Orwell e a transfiguração da realidade pela linguagem, em que “Guerra é Paz”, “Escravidão é Liberdade” e “Pokémon GO é Vida”, mesmo que seja em bolhas chamadas a partir de agora de pokebolas. 


*            *            *

Notinha: Os destaques no texto são por minha conta.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"Casa de Bonecas" - Henrik Ibsen

Sobre as condições da mulher na sociedade do séc, XVIII. (1788)

Trechos do diálogo final em “Casa de bonecas”, de H. Ibsen: personagens Nora e Torvald Helmer (marido e mulher)

"NORA:
(...) É esse o ponto. Você nunca me compreendeu. Tenho sido tratada muito injustamente,Torvald; primeiro por papai, e depois por você.
(...)
Vocês jamais me amaram, apenas lhes era divertido se encantar comigo.
(...)
É assim mesmo, Torvald; quando eu estava em casa, papai me expunha as suas ideias, e eu as partilhava. Se acaso pensava diferente, não o dizia, pois ele não teria gostado disso. Chamava-me sua bonequinha e brincava comigo, como eu com as minhas bonecas. Depois vim morar na sua casa.
(...)
NORA (imperturbável) 
Quero dizer que das mãos de papai passei para as suas. Você arranjou tudo ao seu gosto, gosto que eu partilhava, ou fingia partilhar, não sei ao certo; talvez ambas as coisas, ora uma, ora outra. Olhando para trás, agora, parece-me que vivi aqui como vive a gente pobre, que mal consegue ganhar o seu sustento. Vivi das gracinhas que fazia para você, Torvald; mas era o que lhe convinha.
Você e papai cometeram um grande crime contra mim. Se eu de nada sirvo, a culpa é de vocês.
(...)

...Creio que antes de mais nada sou um ser humano, tanto quanto você ... ou pelo menos, devo tentar vir a sê-Io. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald,e que essas ideias também estão impressas nos livros. Eu porém já não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros. Preciso refletir sobre as coisas por mim mesma e tentar compreendê-Ias.
(...)
...Não, nada entendo. Mas quero chegar a entender e certificar-me de qual de nós tem razão: se a sociedade ou se eu.
(...)
Eu tornei a ser uma avezinha canora, a sua boneca, que você passaria a proteger com  mais cuidado, pois percebeu quanto era delicada e frágil!”
(...)
 **
Li pela primeira vez essa peça há muitos anos,
Na época, eu não tinha maturidade suficiente para mergulhar no universo intenso da personagem Nora, ela mesma sem compreender suas angústias e dúvidas existenciais, embora tivesse um vislumbre do que era, verdadeiramente, a questão que a incomodava.
No início da leitura eu até pensava nela como uma mulher mimada e voluntariosa, só isso.

Agora, muito tempo depois, relendo e observando o que está por aí, confesso minha emoção com essa peça e admiração sempre maior pelo autor.
Arte é assim.

Guardadas algumas proporções, a condição sociocultural da mulher atual ainda precisa ser pensada, falada e demonstrada o tempo todo.
Soa tristemente como um apelo para sermos consideradas, antes de tudo, seres humanos.

*          *          *

sábado, 20 de agosto de 2016

A QUEM INTERESSAR POSSA:


Tudo,, tudinho o que penso, aí está expresso, Sem tirar nem por. Nada mais a declarar.
**

Histórias 
Ana Bailune -Confissões de Uma Idosa Cínica - Parte IV



Alguns conselhos para os quase velhos e para os velhos  (ou idosos, se preferirem; quem sabe, vocês prefiram , ao meu ver, o pejorativo termo "membros da terceira idade." Ou o mentiroso "membros da melhor idade:):

-Seja independente. Cultive a independência, tanto financeira quanto física e emocional. Cuide bem de sua saúde para que na velhice você tenha a melhor mobilidade física possível, e esteja livres de doenças crônicas, como diabetes e artrites. Exercite-se; faça caminhadas, consulte o médico periodicamente.

-Aprenda a apreciar a solidão, através da criação de momentos mágicos, como o apreciar da chuva, ou do nascer do sol, um passeio à pé por um belo jardim, um bom livro, boa música. 
Abra um blog; aprenda a usar a internet, compre um computador, e dê asas à imaginação. 
Quem sabe, você não possa tornar-se um exímio fotógrafo ou poeta? Enfim, crie alguma coisa que te traga momentos de lazer preciosos. 
Se preferir, entre para um daqueles grupos da terceira idade (ai, ue horror), que se encontram para jantares dançantes ou excursões - embora eu não tenha conseguido adaptar-me a eles.

-Aprenda a fazer-se respeitado! Os mais jovens têm a mania de pensar que somos inúteis ou incapazes de cuidar de nós mesmos. Querem mandar nas nossas vidas.

-More em sua própria casa, nem que seja um pequeno apartamento, mas evite loucuras, como subir em escadas para trocar lâmpadas, por exemplo. 
Preste atenção para não deixar o fogão aceso, e evite os chuveiros à gás. 
Melhor exercitar sua memória fazendo palavras cruzadas, ou se preciso, tome um medicamento para evitar esse tipo de coisa. Mas prefira viver sozinho. Por mais encantadores que seus filhos sejam, quando eles o convidam para viver com eles, é porque sentem-se obrigados a isso, e não porque querem realmente conviver com você. Assim que você realmente precisar da ajuda deles, eles se esquecerão dos tempos em que você limpava-lhes as bundas, alimentava-os, levava-os à escola, lia histórias para que dormissem e dedicava todo o seu tempo a cuidar deles. Assim que você tornar-se o que eles consideram  um velho inútil, aqueles que antes brigavam pela sua companhia estarão brigando para ver quem segurará a barra de ficar com você. Eles o empurrarão uns para os outros como se você fosse um velho cão sarnento. Portanto...

-Tenha um plano de saúde. Nem que você precise dar uma grande parte de sua aposentadoria para pagar um. Se não tiver, correrá o risco de, quando precisar, ter que fazer uso dos 'serviços' de um hospital público, pois seus filhos não terão dinheiro para pagar-lhe um tratamento. Já viram quanto custa um dia de UTI?

-Se viver sozinho tornar-se difícil, escolha você mesmo para qual tipo de instituição você quer mudar-se. 
Jamais aceite viver com seus filhos, pois eles o tratarão como um inútil cuja opinião não faz a menor diferença para ninguém. Eles o legarão ao quartinho dos fundos, e adorarão que você permaneça lá a maior parte do tempo. 
Vão querer controlar seus gastos, determinando o que você pode ou não comprar. Vão desejar entupir-lhe de medicamentos que vão acabar com seu estômago e sua boa disposição física. Mas tudo com a melhor das intenções, é claro!

-Mas se a sua única saída for morar com um dos filhos, evite dar opiniões, sejam elas quais forem. Fique lá no seu quartinho a maior parte do tempo, seja gentil, faça tudo o que eles mandarem, não se intrometa nas decisões ou brigas de casal, não queira interferir na educação de seus netos e evite até mesmo regar um vaso de plantas sem antes perguntar se é permitido fazê-lo. A não ser que você queira ver seu pimpolho transformar-se em um monstro em questão de segundos.

-Não deixe que falem de você como se você não estivesse presente. 
Geralmente, os filhos - e até as pessoas que não pertencem à família - gostam muito de fazer esse tipo de coisa. Ficam discutindo sua vida sem pedir a sua opinião. Não permita que isso aconteça. Nem que você precise berrar um palavrão para que a ouçam. A última decisão sobre a sua vida deve ser sempre sua. Não perca sua dignidade como ser humano.

-Torça para que, depois de impor a sua vontade, eles não queiram internar você em uma clínica psiquiátrica...

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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DUO. MELODIA SENTIMENTAL



Composição de Heitor Villa-Lobos

Gravado no ensaio para o concerto 'Amici della musica' no Teatro Toniolo, Veneza, Italia em março de 2013.

Gustavo Tavares - Cello
Nelson Faria - Violão


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diferença ela/ele

Aqui está a diferença entre homens e mulheres

No diário dela:
«Esta tarde meu marido se comportou muito estranhamente; tínhamos ficado de jantar juntos no nosso restaurante favorito.
Todo o dia estive fazendo compras com as minhas amigas, cheguei um pouco tarde ao restaurante e achei que isso o incomodou. A conversa fluiu e sugeri ir a um lugar mais tranquilo para que pudéssemos conversar mais calmamente. Ele concordou, mas ainda não falamos muito. Perguntei-lhe o que acontecia e ele disse que não era nada. Perguntei se eu era a culpada por sua falta de humor e ele respondeu que nada estava errado e que não havia nada com que se preocupar.
No caminho de casa, disse que o amava, ele sorriu e seguiu em frente, sem mais. Não consigo explicar seu comportamento. Não consigo entender por que ele não falou que também me amava. Quando chegamos em casa, senti que o perdera completamente e que não queria mais nada comigo; ele simplesmente ficou sentado no sofá, vendo televisão, com o olhar perdido. Um pouco mais tarde disse que estava indo dormir e ele não me respondeu.
Quinze minutos depois ele entrou no quarto, senti que alguma coisa o preocupava e que os seus pensamentos estavam em outro lugar. Ele adormeceu, mas eu não consegui pegar no sono até meia noite. Não sei o que fazer, sei que a mente dele está em outro lugar, a minha vida está prestes a cair no abismo...»

Um SMS que ele enviou a seu melhor amigo:
«Cara, não sei mesmo o que há de errado com a moto, o motor não está pegando».


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Fonte: "Sci  psy"