sexta-feira, 19 de abril de 2013

'GENTE DO INTERIOR'


A TV estava ligada em um desses programinhas de variedades - são tantos e tão chatos - quando ouvi a apresentadora (aquela de fala molenga) se referir ao 'povo do interior', sem esquecer, ainda bem, que ela mesma nasceu e cresceu no 'interior'
.
Continuando: dizia ela que estava usando uma expressão característica do 'povo do interior', como se fosse algo menor, ou que o "povo da cidade grande" - a boboca ainda se utiliza desses termos - tem a fala mais elaborada. Não me contive e dei aquela minha risadinha que alguns já conhecem... Pois é, vivo no 'interior' mas tenho cá as minhas ironiazinhas...
E fiquei pensando: quanta idiotice em rede nacional - xiii, a emissora é internacional, desculpaêê.

Será que ela desconhece que no 'interior' há escolas, universidades, e que, principalmente, o 'povo do interior' tem mais tempo para se dedicar às coisas que interessam, podendo estudar, trabalhar, ler, navegar na internet, passear  sem tanto stress, as pessoas saem sem aquelas preocupações incríveis com segurança e sem pensar que podem não voltar para casa?

No 'interior' se vive, moça. Aliás, vive-se bem. Pode ser que não haja tantos teatros, tantos cinemas, tantos restaurantes, tantas casas de espetáculo, tanto tantos... mas temos alguns, temos alguns.
Além disso, livrarias, jornais, revistas, internet e TV (essa dispensável, na minha opinião), agora invadiram tudo, né? Até o 'interior'. 'Interior' ao qual ela se referia - não se trata de zona rural. É só 'zona interior'.
Ah, também nos locomovemos para a 'cidade grande' quando nos interessa. E quer saber? Triste de quem precisa sair do 'interior' para ganhar a vida nas metrópoles.

Outra coisa: em relação à linguagem utilizada pelos apresentadores de TV, que eles estudem mais, informem-se mais, e parem de falar tanta bobagem.

É preciso pedir a ela - ô apresentadorazinha arrogante - que leia a linda crônica de Rachel de Queiroz,  escrita quando a mídia mais acessível ao 'interior' eram apenas o rádio e a TV.
De lá para cá as coisas mudaram, moça. Infelizmente, mudaram.

Aí vai a crônica da grande Rachel (que, aliás, era também do 'interior' e continuou sendo Rachel de Queiroz, para alegria da 'cidade grande').

*            *            *

Vai na Onda
Rachel de Queiroz

A TV e rádio estão criando um novo idioma nacional. Isso é bom?
A pergunta é de todos: para onde irá evoluir esta nossa língua portuguesa, que a maioria de nós chama de brasileira?
De primeiro, as províncias isoladas pelo mar ou pela vastidão das terras vazias formavam um arquipélago de falares, cada ilha com a sua linguagem própria, seu acento - que, nas regiões de influência estrangeira se poderia chamar de sotaque, como o "italianinho" do Brás ou o alemão do Vale do Itajaí. E não só o acento ou o sotaque eram diversos, os nomes dos bichos, das árvores, dos objetos, as locuções do cotidiano podiam tornar impossível a conversa de um paraense com um gaúcho. Mesmo porque, separados ambos por quase toda a extensão do continente, outros eram os bichos e as plantas, outras as tradições domésticas criadoras de fala familiar.

Assim mesmo, ninguém poderia dizer que nortistas e sulistas falassem dialetos diferentes. A língua, tão rica e plástica que é, conserva-se basicamente a mesma. E quando escrita pelas camadas mais cultivadas de brasileiros, não apresentava diferenciações importantes. No papel, a língua era rigorosamente a mesma, ao Sul ou ao Norte, sem se desestruturar em dialetos. Aquela mesma língua bela e nobre que os portugueses nos deram e que aqui nós adoçamos, enriquecemos, africanizamos, tupiniquinizamos em parte, mas só alisando arestas, só abrandando os proparoxítonos, só desembolando alguns pronomes enclíticos e mesoclíticos por demais puxados para nosso fôlego.

E eis que de repente rebentou a era do rádio; e em seguida a era da televisão. A princípio deu-se até uma espécie de choque cultural com a invasão dos lares provincianos pelas vozes dos locutores cariocas, pois nessa época o predomínio cultural do Rio era total.

Mas a grande revolução ainda não foi essa - ela chegou com o transistor. Já havia TV, então, mas apenas nas cidades grandes e restrita à classe média. As vozes que invadiram o Brasil de ponta a ponta vieram mesmo nas asas dos pequenos rádios de pilha munidos de transistores. Emitidas pelas redes nacionais mais potentes, alcançavam até as ocas dos índios no Xingu e os sertões mais profundos a Leste e Oeste.
Claro que havia, paralelamente, as pequenas emissoras locais; e chegava a ser patético o esforço dos moços "espíquers" do interior, tentando falar com os ídolos do Sul-maravilha, como os Cesar Ladeira e Heron Domingues. 
Os jogos dos grandes clubes de futebol do Rio e de São Paulo passaram a ser transmitidos nacionalmente, como os programas de auditório da rádio nacional e as primeiras novelas.

Veio aí a eletrificação do interior e a TV se tornou acessível a todo o Brasil. Os padrões regionais desaparecem. Um roqueiro do Recife canta igual a outro roqueiro do Paraná. E no fundo todos cantam o rock internacional. E o que os gramáticos e os nacionalistas não conseguiam, de repente invadiu tudo como um macaréu: o falar nacional cada vez se igualiza mais, passando por cima de todas as diferenças regionais.

A pena é que o nivelamento se tenha feito tão por baixo. Pois os padrões linguísticos, impostos pela TV e pelo rádio nem sempre são aceitáveis e às vezes são chocantes. É ótimo se falar linguagem coloquial, mas não precisa abusar. Afinal não é preciso falar como os analfabetos para que os analfabetos nos entendam. Basta falar de modo claro e singelo, mas correto. E os analfabetos, além de compreenderem o que foi dito, talvez possam até aprender um pouco.

Além do mais, já pensaram que para assistir e apreciar TV e rádio não é indispensável saber ler? E esse é o grande perigo.
*            *            *

3 comentários:

  1. Fiquei curiosa sobre a "apresentadora de fala molenga"... Seria aquela das manhãs, acompanhada de um penoso simpático? ;)

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  2. A própria, amiga. Tenho uma certa implicância com ela, vai saber por que... Coisas da 'véia' aqui. Liga não. Ah, Obrigada por usar o seu tempo lendo e comentando as minhas divagações. Você está entre as gratas descobertas da rede. Eita mulé que dá gosto de ter uma prosa... Verdade...

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  3. Ah, só pra saber: o 'penoso' é muito melhor que a própria. É ele que traz graça e informação ao programa.

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